Uma garota sozinha perambulando pelo temido Oriente Médio

Uma garota sozinha perambulando pelo temido Oriente Médio

Certo dia, ao entrar em meu quarto e passar pelo scratch map ─ um mapa em que vou arranhando  com moedas os países que visitei ─, me dei conta de algo intrigante:: havia uma grande região que se estendia do Leste Europeu até o Norte da África que eu nunca visitei. Excluindo o que eu aprendi na escola sobre as civilizações antigas, pouco eu sabia sobre os países dessa região. Naquele momento, tomei uma decisão: tinha que ir lá ver o que existia, como as pessoas viviam, o que comiam, o que vestiam, o que escutavam no Spotify! Mas, seria possível uma garota sozinha viajar por aquela região?

Acredito piamente que todo país tem algo de bom para mostrar a seus visitantes, mas a gente tende a visitar sempre os top30 dos países mais turísticos, em sua grande maioria países desenvolvidos, “primeiro mundo”. Eu também olho com ressalvas quando me dizem que certos países são perigosos. Entenda: eu sou brasileira. Desde pequena, tomo precauções a partir de conselhos-regras que, a essa altura, já estão incorporados em minha rotina: “tome cuidado com o celular! Não descuide do que acontece à sua volta! Não saia à noite em tal lugar! Cuidado com o golpe X!” Sem contar que, mesmo em países tidos como perigosos, há pessoas vivendo suas vidas normalmente, acordando de manhã e indo comprar pão na padaria. Se eles podem, porque eu não? Fiz algumas pesquisas sobre a situação social-política dos lugares que desejava conhecer e, algum tempo depois, arrumei a Sullivan, minha mochila de 60L e única companheira permanente de viagem, e parti.

Irã

Passei pela Península dos Balcãs, região da antiga Iugoslávia que, após a queda do socialismo, entrou em uma série de conflitos extremamente sangrentos, alguns dos quais terminaram recentemente, já neste século. Lá, em países como Bósnia, Sérvia, Albânia, Kosovo, que comumente são referenciados como os mais perigosos da Europa, já pude sentir que a coisa não era tão ruim assim. Segui viagem e ingressei no Oriente Médio pela Turquia. Agora é que eu ia ver com meus próprios olhos essa tal região mais perigosa do mundo.

Entrei no Irã pela fronteira terrestre com a Armênia, depois de passar por Geórgia e Azerbaijão. Eu já havia tirado o visto anteriormente na Embaixada do Irã em Tbilisi, Geórgia, mas é possível também tirá-lo na chegada ao aeroporto de Teerã. Para passaporte brasileiro, o valor é de 60€ e é necessário preencher um formulário com os dados pessoais e um endereço no Irã – pode ser do seu hostel.

Logo no primeiro momento no país, já senti a hospitalidade de seu povo: uma amiga, que eu conhecia apenas por internet, foi me buscar na rodoviária de Tabriz, norte do Irã, à uma da madrugada, depois de meu ônibus ter atrasado três horas. Ela fez questão de que eu passasse em sua casa, porque havia preparado um jantar para mim, ou melhor, um banquete!

No dia seguinte, ela e seu marido me levaram para comprar uma roupa adequada às leis do Irã. Desde 1979, quando houve a revolução islâmica e o governo do Xá, que era alinhado aos EUA, foi derrotado por um grupo xiita, instaurou-se um governo religioso. Há várias regras que para nós soam diferentes, por exemplo, em relação à vestimenta: as mulheres são obrigadas a cobrir o bumbum caso usem roupa justa e a usar o lenço sobre o topo da cabeça, enquanto os homens devem usar calças e cobrir os ombros. O consumo de bebida alcoólica e outras drogas é proibido, não se pode dançar em público, um homem e uma mulher não casados não devem ficar a sós juntos, entre outras coisas. Além da roupa, comprei também um chip de celular e, pasmem, a internet custava menos de três dólares para dez gigas! Devido ao embargo dos EUA, o Irã não funciona com o mesmo sistema bancário que o resto do mundo e isso significa que, apesar de maquininhas de cartão e caixas eletrônicos estarem por toda a parte no país, seu cartão Visa, Mastercard, Maestro, etc, não funcionará lá. É preciso levar todo o dinheiro em espécie, em uma moeda forte, como o dólar ou o euro. Também é bom levar um pouco a mais caso haja alguma emergência, porque receber dinheiro de fora é extremamente complicado lá também ─ WesternUnion e Moneygram não funcionam tampouco. Tenha as precauções básicas de não deixar todo seu dinheiro em um só local, mas não se preocupe demais, as taxas de violência urbana no país são irrisórias. Existe uma taxa de câmbio oficial, sustentada pelo governo, e uma do mercado ilegal, ou seja, pessoas que trocam o dinheiro na rua. Normalmente, ficam todos juntos em algum ponto da cidade, basta se informar no hostel onde estão e como chegar até lá. Antes de ir, verifique em sites específicos qual a cotação do dia─ basta colocar no Google “live iranian ryal” e encontrará vários sites com os valores atualizados.

Depois desses afazeres, fomos finalmente explorar o país. Meus amigos me levaram para o norte e qual foi a minha surpresa ao ver montanhas de neve por lá! Em Kadovan, uma cidadezinha onde as casas foram cavadas na pedra, muito parecida com Capadócia, a neve chegava a mais de um metro. Meus amigos me contaram que os esportes de inverno são muito apreciados por lá e eles têm um dos resorts de esqui mais baratos do mundo!

Meu próximo destino foi a capital Teerã. Como qualquer outra cidade grande do mundo, Teerã é um mundo à parte do resto do Irã. Senti um ambiente muito progressista, os jovens são mais rebeldes, as mulheres tentam cobrir o mínimo do cabelo possível. Essa, inclusive, é uma maneira de analisar quais mulheres de fato são religiosas: aquelas que seguem o Islã terão seu véu (hijab) cobrindo bem o cabelo ou vestirão um pano que cobre todo o corpo (chador) ou mesmo aquele que cobre o rosto (niqab); já as que estão usando o véu somente por obrigação, deixam o cabelo super aparente. Normalmente, as mulheres fazem um coque alto e apenas prendem o véu aí, deixando todo  o resto à mostra. Existe pouca liberdade de expressão no país, então, esse é um ato de protesto contra o regime. A maioria das pessoas com quem conversei, tanto homens como mulheres, não concordam com o governo. Claro, estive nas cidades maiores e mais turísticas, então, acabei conhecendo pessoas mais liberais e já acostumadas com estrangeiros, mas, de toda a forma, fiquei com a impressão de que o há um descontentamento geral dos iranianos com o atual sistema e suas regras. Por exemplo, recentemente, uma iraniana ateou fogo em seu próprio corpo para protestar contra uma sentença de prisão após ter ido a um estádio de futebol, ato proibido para mulheres no país. A FIFA interferiu ameaçando o Irã a não deixá-lo participar de torneios internacionais caso não mudasse a lei e, finalmente, depois de mais de 30 anos, as mulheres já podem frequentar estádios.

Teerã é uma mistura do moderno com o antigo, do liberal com o conservador. Os palácios reais e mesquitas são enormes e decorados com a arquitetura e mosaico árabe/persa. Dentro do islamismo, não é costume que se decore os lugares com imagens de pessoas e animais porque, no Alcorão, assim como na Bíblia, está escrito que “não deves idolatrar ninguém além de Deus”. Como resultado, as figuras geométricas e desenhos de flores, assim como os vitrais coloridos, estão por toda a parte no mundo muçulmano.

Existem restaurantes caríssimos com gastronomia de todo o mundo, mas, também, o bom e velho lanche de falafel por menos de 30 centavos de dólares. É comum você ser parado por estranhos na rua e, com olhares curiosos, perguntam de onde você é, qual sua profissão, o que está fazendo no Irã, etc. Algumas vezes, essa conversa amistosa irá terminar apenas com um “Bem-vindo ao Irã!”, mas, na maioria das vezes, a pessoa, que até pouco era uma completa estranha, vai te convidar para ir à casa dela almoçar ou tomar um chá. Aceite! É na casa das pessoas que você irá comer a melhor comida de sua vida ─ iranianos não têm o costume de comer na rua e, por isso, lá encontramos majoritariamente opções de fast food ou restaurantes com comida típica, mas feita para turistas. A culinária persa é riquíssima, premiada como uma das melhores do mundo. Além de muitas frutas, os iranianos costumam incluir em sua dieta grão de bico, arroz, carnes, nozes, pistache, açafrão e muito pão.

Táxis também são extremamente baratos! Por exemplo, contratei um para me levar de Shiraz a Persépolis e Pasárgadas (cerca de 100 km) e esperar que eu visitasse os lugares (saímos de Shiraz às 11h da manhã e voltamos às 19h) e custou apenas 10 dólares. As corridas dentro da cidade também não costumam ultrapassar de um ou dois dólares e há aplicativo tipo Uber para pedir o táxi com segurança.

Visitar Persépolis foi um dos meus objetivos principais ao ir para o Irã. As ruínas da capital do Império Persa em seu momento mais poderoso são magníficas. As paredes narram em murais as histórias de seus reis e conquistas. Blocos enormes de pedra alaranjada moldam as áreas públicas e sociais. O império persa foi um dos maiores de toda a humanidade, no seu auge, com a dinastia dos Aquemênidas, por volta do século V a.C. ia desde a Grécia e o Egito até a Índia. Ciro, o Grande, era muito tolerante com os povos que dominava, permitindo que continuassem com seu modo de vida e cultura, tendo apenas que pagar taxas ao governo. Assim, a cultura persa absorvia o melhor das outras culturas e foi capaz de ter grandes avanços científicos e tecnológicos.

Além de Shiraz e Teerã, as outras duas principais cidades que você deve visitar no país são Isfahan e Yazd. Se for passar apenas por essas quatro cidades, 12-15 dias devem ser o suficiente. Mas se tiver um pouquinho mais de tempo, o país tem muito mais para oferecer! Você pode, por exemplo, visitar o lugar mais quente da terra, o deserto de Kashan que, no verão, chega a marcar temperaturas acima de 70ºC. Ao sul do país, já no Oceano Índico, existem duas ilhas que valem muito a pena conhecer: Hormuz e Qeshm. A primeira é mais rústica e oferece apenas camping selvagem como opção de hospedagem. Já em Qeshm, existem hostels. As duas ilhas têm uma formação geológica magnífica, com rochas de diferentes cores e montanhas de cristais de sal. Em Hormuz, há uma pedra com areia preta que brilha quando a luz do sol a toca, pois contém minério de ferro que, em contato com a água do mar, acaba soltando um pigmento vermelho. O resultado é uma praia negra brilhante com um mar com a água azul púrpura. Parece história de pescador, mas é verdade! Em Qeshm, há também um vale onde as paredes sofreram erosão, criando vários buracos enormes. É como se fosse um formigueiro, mas gigante. Há também cavernas arco-íris, em que as paredes possuem inúmeras cores.

Para se deslocar entre as cidades, você pode utilizar o trem ou o ônibus. Ambos são extremamente confortáveis e bem cuidados. Os ônibus, inclusive, oferecem um lanchinho durante a viagem! Um fato interessante é que, por lei, homens não podem se sentar ao lado de mulheres desacompanhadas. No trem e no metrô de Teerã, existem vagões próprios para mulheres. Nos ônibus, quando um homem tinha o assento marcado ao meu lado, antes de começar a viagem, o motorista vinha pedir para que o homem se mudasse ─ nesse momento, começa um tal de troca-troca no ônibus, para que mulheres se sentem apenas ao lado de seus parentes ou de outras mulheres. É muito engraçado observar todo o arranjo que precisam fazer para isso dar certo!

Outra opção é viajar de carona! Não é algo muito cultural dos iranianos pegarem carona e, por isso mesmo, dá certo. Normalmente, tão logo eu chegava numa estrada, alguém já parava para mim. Eles não entendiam o que eu estava fazendo ali e perguntavam se eu estava com algum problema ou precisava de algo. Ao explicar que tudo estava ok, eu só estava tentando chegar numa certa cidade, logo se ofereciam para me levar e faziam questão de me deixar na porta de onde eu precisava ir! Mas atenção: para pegar carona lá não é aconselhável que faça aquele símbolo clássico de esticar o braço e levantar o dedão. Isso por que o sinal de joia na cultura deles tem o mesmo significado que o dedo do meio para nós!

Exatamente por todas essas peculiaridades, o Irã é um dos meus países favoritos! É muito interessante observar como a sociedade se organiza de maneira tão diferente da nossa. É super interessante poder desenhar a sua própria imagem de um país que os noticiários costumam pintar de forma tão negativa. Conhecer a história do Irã, com seus grandes impérios, e ver com os próprios olhos tudo o que fizeram também é magnífico. Por fim, tenho para mim que não existe povo no mundo mais hospitaleiro e simpático que os iranianos. Se visitar o país com os olhos abertos, sem carregar preconceitos e julgamentos, há muito que aprender com o povo persa!

Curdistão

Depois de quarenta dias no país, era hora de continuar viagem. O próximo destino era o seu vizinho, o Iraque, no qual cheguei através da fronteira terrestre com o Irã. A saída se deu tranquila, mas quando fui passar na imigração de entrada houve um problema: o pessoal de lá não acreditava que o Governo Regional do Curdistão não pede visto para brasileiros.

Ué, mas você tá indo para o Iraque ou para o Curdistão? Explico: ao norte do Iraque, há uma região com um governo autônomo chamado Curdistão. Basicamente, eles têm seu próprio governo, educação, saúde, transporte, etc, mas quem controla suas fronteiras e alguns dos impostos é o governo central do Iraque. Para visitar o Iraque, é preciso solicitar um visto na Embaixada do Iraque (um visto bem difícil de ser concedido, aliás). Mas para visitar o Curdistão, 40 nacionalidades – sendo 28 da União Europeia – não necessitam de visto!

Imagino que não devam passar muitos brasileiros por ali, então, a confusão estava armada! Por sorte, mesmo já havendo passado a fronteira física, meu chip de telefone do Irã ainda estava funcionando e eu consegui abrir o site do governo iraquiano e mostrar a página que coloca o Brasil na lista de países visa-free!

Passaporte carimbado, fui para a estrada levantar o dedo. É… preciso contar isso: eu estava viajando de carona desde a cidade de Kermanshah, lado iraniano. No Iraque, o transporte público é extremamente precário, então, eu já havia visto que não havia Van nem ônibus que faziam esse trajeto, sobrando, pois, somente a boa e velha solidariedade humana como opção ─ quer dizer, daria para pagar um táxi também, mas isso já não cabia no meu orçamento! Não demorou muito para um carro parar. Ele ia exatamente para meu destino final: Sulaymaniyah! Que sorte!

Existem duas cidades importantes no Curdistão Iraquiano: Sulaymaniyah e Erbil, a capital. Eu visitei as duas. As atrações vão de parques, mesquitas, souks (mercados de rua), fortes e museus. Um dos museus mais importantes da minha vida foi lá: o Amna Surak. Ele conta a história do genocídio do povo curdo no período do governo de Saddam Hussein. Há, também, uma sala dedicada à luta contra o Estado Islâmico. Não aparece muito na mídia, mas os curdos, com seu exército dos peshmergas, foram um dos principais combatentes contra os extremistas e até hoje são uma das principais forças para garantir que eles não se fortaleçam novamente.

Mas quem são os curdos? Os curdos são o povo das montanhas entre Turquia, Irã, Iraque e Síria. Eles não são turcos, nem persas, nem árabes, mas constituem sua própria etnia, com costumes e normas sociais próprias. São considerados um dos maiores povo sem Estado do mundo! Nos quatro Estados onde estão presentes, os curdos lutam pela independência e são, normalmente, fortemente reprimidos.

Dizem que os curdos são o povo da montanha e não é para menos: toda a região onde estão é cercada por enormes montanhas, com o topo cheio de neve e lindos campos verdes ao redor. Existem vários rios e cachoeiras também. Eu me juntei a alguns amigos que conheci lá em Sulaymaniyah e Erbil e fiz duas road trips pelo interior do país e, certamente, elas foram um dos pontos altos da minha viagem.

Síria

Após dez dias explorando o Curdistão, tomei um vôo para o Egito, onde solicitei meu visto para a Síria na Embaixada no Cairo. O visto não é complicado de se conseguir, basta preencher um formulário, entregar na embaixada e pagar a taxa de dez dólares. Me disseram que estaria pronto em duas semanas, mas, na verdade, levou três. Não reclamei, afinal, o Egito é um país maravilhoso para se explorar também, mas vamos focar na Síria. Burocracia resolvida, tomei um barco para a Jordânia, de onde eu cruzaria para Damasco, capital da Síria. Como o país está em guerra civil há algum tempo, não existem vôos para lá. É preciso cruzar desde Beirute (Líbano) ou Amman, a capital da Jordânia. Existem ônibus e táxis compartilhados que vão diretamente para lá.

É verdade que o país ainda está em guerra, mas, assim como no Brasil, temos na Síria, diferentes níveis de seguranças em diferentes lugares ─ anualmente, morrem mais pessoas vítimas de armas de fogo no Brasil do que na Síria. Nessa viagem, feita em junho de 2019, visitei o Sudoeste e a costa do país. No Norte, perto da cidade de Aleppo e Idlib, ainda havia um frente de combate ativo. Na região curda da Rojava não havia guerra em si, mas, também, não era considerada segura para turismo. Basicamente, em países assim, você precisa se informar sobre a atual situação antes de ir e, só então, montar seu roteiro. Alguns importantes sítios arqueológicos, como Palmyra, ainda têm seu acesso restrito apenas a turistas com guias ─ então, acabei por não visitá-los.

Estive, no entanto, em Damascus, Krak de Chevaliers e Tartous, no Mediterrâneo, e o que vi foi surpreendente. Eu tinha duas curiosidades na minha viagem para Síria: primeiro, claro, a história do país. As primeiras civilizações humanas nasceram ali, como os fenícios, assírios e babilônios, e outras grandes civilizações passaram por lá, como os romanos, persas, otomanos e omíadas. Segundo, como socióloga, gostaria de ver como a sociedade estava se organizando nesse período pós-guerra, ou seja, queria conversar com locais e ver como era a vida ali.

No passado, a Síria era um país muito turístico e, em 2008, chegou a ser eleita como Destino do Ano pelo guia Lonely Planet. Eles possuem uma estrutura turística maravilhosa, mas hoje, poucos hotéis restaram, e por isso, preferi me hospedar na casa de conhecidos de amigos sírios que fiz enquanto estava na Europa, o que fez a minha experiência lá ainda mais intensa. As ruas de Damascos são cheias e vibrantes, as pessoas sorridentes e extremamente felizes em ver os turistas começando a voltar lá. Todos são simpáticos, e, apesar da barreira linguística, tentam ajudar como podem ─ eu falo apenas um pouco de árabe, e eles não falam inglês nem francês. Nas áreas que visitei, a sensação de segurança era ótima ─ inclusive, uma das famílias que me hospedaram era de sírio-brasileiros que decidiram voltar a viver no país em 2016, depois de sofrerem inúmeros assaltos no Brasil. Disseram que, na Síria, se sentiam muito mais seguros que em Brasília. De fato, eu caminhava sozinha, tarde da noite, com celular na mão, sem ninguém mexer comigo ─ isso é, na verdade, algo bem comum no Oriente Médio: os países são bem seguros e casos de roubo, furto ou sequestro são irrisórios. Isso é explicado, primeiro, pela religião islâmica, que prega que devemos ser bondosos e sempre ajudar o próximo, e, segundo, pelas penas dos crimes serem severas.

Palestina

Após duas semanas me encantando com a Síria e seu povo, voltei para Amman para pegar um táxi compartilhado rumo à fronteira da Palestina, ou mais precisamente, de Israel. Sem querer entrar muito em política, a história resumida é: muitos povos habitavam aquela região da Judeia e Canãa desde sempre, entre eles, os israelitas. Estes, em grande maioria, saíram em diáspora ainda na Idade Média e outros povos dominaram a região, entre eles, os filisteus, que deram origem aos atuais palestinos. No fim do século XIX, o movimento sionista, que pregava o retorno dos judeus à sua terra de origem, começou a se fortalecer e, após a Segunda Guerra Mundial, a ONU fez uma resolução que dividia o país que desde o fim do Império Otomano era apenas Palestina em Israel e Palestina. Muita coisa rolou desde 1948, mas Israel acabou por ocupar bem mais terras do que a ONU havia designado nesta resolução e, entre outras coisas, passou a controlar a fronteira do seu país e também da Palestina, que passou a ter status de território. Israel controla o ir e vir de todo o território e, gradualmente, estabelece assentamentos ali para que, pouco a pouco, domine todo o território da Palestina. Os palestinos, naturalmente, resistem. Mas antes de ir à Palestina, eu não sabia nada disso. Existe muita desinformação, e a mídia tende a tratar toda a questão com uma visão muito ocidentalizada e, portanto, parcial. Descobrir tudo em primeira pessoa foi um dos meus maiores aprendizados no país. Está aí um dos pontos mais importantes sobre viajar: poder ver as coisas com seus próprios olhos e tirar suas próprias conclusões. Apesar de todo esse bafafá, a violência se concentra principalmente entre israelenses e palestinos e o país é muito seguro para turistas.

Além de entender todo esse contexto político, a Palestina tem muito a oferecer em termos de turismo religioso e histórico. Em Belém, uma das cidades de maioria cristã do país, está o local de nascimento de Jesus Cristo e, na região, há muitos outros locais citados na Bíblia, além, claro, dos locais do calvário, crucificação e ascensão aos céus, em Jerusalém. Ramallah é um ótimo ponto de partida para explorar toda a região. Eu fiquei hospedada no Área D Hostel, um hostel novo e com uma estrutura maravilhosa, em pleno centro da capital palestina. Não deixe de visitar também Jericho, uma das cidades mais velhas do mundo, com, ao menos, dez mil anos de história!

Eu sei que muitas pessoas pensam que Irã, Iraque, Síria e Palestina são países super perigosos, especialmente, para uma mulher viajando sozinha, mas, nos mais de 100 dias em que passei perambulando entre eles, eu não me senti insegura em nenhum momento. Dentro do Islã, se valoriza muito os viajantes porque, historicamente, ou eles são comerciantes ou são peregrinos em direção à Meca. Sendo assim, é um traço cultural muito forte o tratamento a qualquer viajante com muita hospitalidade e gentileza ─ inúmeras vezes, as pessoas me convidaram insistentemente para dormir ou comer na casa delas. Na minha experiência, apesar da curiosidade em ver uma mulher viajando sozinha, eles também me trataram com extremo respeito e cuidado.

O Oriente Médio é o encontro de três continentes (África, Ásia e Europa) tanto quanto de três religiões (judaísmo, cristianismo e islamismo), além de inúmeros povos seculares, como os árabes, persas, turcos, curdos e judeus. Ou seja, é inegável que qualquer viagem para lá será uma experiência histórica e cultural intensa e que o viajante se encantará com suas cidades, natureza, sabores, música e, claro, pessoas!

📚 Sobre A Autora 📚

Aos 16 anos, Ana saiu sozinha de uma cidadezinha do interior de São Paulo para sua primeira viagem ao exterior. Um ano depois, quando voltou, decidiu que dedicaria sua vida a viajar mais e começou a buscar maneiras de fazer isso acontecer. Oito anos depois, já morou em dez países, visitou 86 e acabou de completar uma viagem de 18 meses pelo Leste Europeu, Oriente Médio e Norte da África. Formada em Ciências Sociais e apaixonada por histórias, ela busca conhecer as sociedades e culturas pelas quais passa, mostrando tudo no seu Instagram.

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Sobre o Autor

Laura Carniel

I'm Laura, Brazilian, and I'm obsessed with dogs, films, sharing good stories with friends and discovering quirky places. Social Media & Content Executive and #HostelworldInsider at Hostelworld. 🌏 Favourite place on earth: London, UK. 🏠 Favourite hostel: Oki Doki Hostel - Warsaw, Poland. Follow my travel adventures and loads of dogs on Instagram @astaclivo 🐶✈️

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