O poder do feminino na construção da primeira Rede Colaborativa de Mulheres Viajantes

O poder do feminino na construção da primeira Rede Colaborativa de Mulheres Viajantes

O quão longe somos capazes de chegar mesmo sem perceber o nosso potencial por completo?

Durante muitos anos, viajar foi tido como “artigo de luxo”, algo que só as pessoas com muita grana poderiam fazer com frequência. Ao longo do tempo, isso foi se desmistificando e a ideia de que viajar era “hobby de rico” ficou para trás. Hoje, as mulheres ocupam a maior parte da mão de obra em diversas áreas e destaco aqui o turismo, onde quase 60% dessa mão de obra se concentra na América Latina. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio indicam que no Brasil nós temos 103,5 milhões de mulheres, número superior à população de 180 países. Essas mulheres representam 51,4% da população e estão conquistando cada vez mais espaços, construindo e descobrindo suas forças.

Quando a ideia de “viajar sozinha” começou a se popularizar, muitas mulheres sentiram muito medo, medo por todos os “é perigoso demais para uma garota” que ouviram a vida toda. E esse medo não é algo fácil de se dissipar, para uma mulher viajar ela precisa quebrar diversas barreiras, barreiras essas que se impõe a cada etapa do planejamento da viagem de forma absurdamente assustadora. Dentre os maiores desafios que uma mulher enfrenta ao planejar uma viagem, o principal é a cultura machista que permeia cada lugar e cada situação e que as acompanha por onde quer que elas forem.

Apesar de todo esse medo, as pesquisas mostram que as mulheres estão na contramão do que a sociedade tenta lhes impor. Um estudo feito pelo Ministério do Turismo e a Fundação Getúlio Vargas, mostra que 17,8% das mulheres que pretendem viajar nos próximos seis meses, deverão fazê-lo sozinhas, um número que apesar de pequeno é muito significativo se levarmos em consideração todos os obstáculos que tivemos que ultrapassar.

Ler histórias de mulheres que superaram seus medos e limites, que seguiram em busca de seus sonhos e acompanhar esses estudos e pesquisas – que poderiam ser melhor desenvolvidos – me faz acreditar que existe uma força dentro de cada uma de nós que nos impulsiona a seguir sempre em frente, sempre em direção aos nossos sonhos, por mais contramão que seja, essa força não nos deixa desistir. Como diria Emicida: “Você é o único representante do seu sonho na terra, se isso não fizer você correr, chapa. Eu não sei o que vai”. Essa força nos modifica e nos torna mais corajosas, destemidas, ousadas… E foi essa força que provocou em minha vida uma profunda transformação.

Frida Hostel am Cabo Frio

O Começo

Em março de 2014, eu recebi uma notícia que abalou todas as minhas estruturas. Eu havia perdido uma das pessoas mais importantes da minha vida, a minha querida avó, Edna Brito. A pessoa que havia trocado minha fralda, me ensinado a comer legumes, que me acolheu em sua casa enquanto minha mãe trabalhava havia partido e levado com ela todos os meus sonhos. Na época eu estava muito animada com o 1° período da faculdade de jornalismo e com o meu site de livros, chamado “Sonhos entre Pontinhos – onde os sonhos não têm fim”, ele tinha acabado de completar 04 anos e eu estava cheia de expectativas por largar um emprego fixo para me dedicar mais aos livros, que eram a minha paixão, quando eu perdi o brilho nos olhos que tinha quando cheirava ou lia um livro novo. Foi uma fase muito difícil, eu já havia perdido pessoas antes, mas a dor nunca tinha sido tão excruciante como daquela vez e nada mais fazia sentido. Algum tempo depois eu reencontrei um antigo amor de escola e apesar de a dor continuar lá, latente, potente, visceral começou a faiscar em mim uma centelha de esperança.

Tudo começou com um inesperado convite…

Meu aniversário se aproximava e eu continuava muito triste quando recebi um convite para conhecer Sana das Águas, um lugarejo entre as montanhas da Serra Macaense no Rio de Janeiro, conhecido por mim, como o lugar que mudou toda a minha perspectiva de vida. Quando cheguei em Sana rapidamente me encantei com as belas paisagens, era uma experiência totalmente nova, eu estava indo acampar pela primeira vez, mas a saudade continuava lá no fundo, insistente. A primeira coisa que me fez perceber a mudança de paradigma foi que eu estava em um lugar totalmente incomunicável. No meio da mata, o telefone não pegava de jeito nenhum e apesar de ficar preocupada com o que minha mãe pensaria eu decidi aproveitar aquela oportunidade, e então quatro dias se transformaram em um mês, ou, pelo menos, essa era a sensação que eu tinha. No Sana os dias não passavam, dormir com o barulho do rio Sana que por vezes eu confundia com o barulho da chuva me trazia uma paz inexplicável. Olhar o céu estrelado, respirar aquele ar puro, tomar banho de chuveirão geladíssimo, ir a uma cachoeira pela primeira vez, tudo isso me levou a enxergar a vida de outra forma. Minha avó havia partido, mas eu ainda estava aqui, viva… Respirando…

O início de uma nova era…

Antes de sair do Sana eu me fiz uma promessa, eu queria continuar me sentindo viva como me senti durante aqueles quatro dias, eu devia isso à minha avó, eu tinha certeza que ela sorriria pra mim de onde quer que estivesse quando me visse sorrindo, vivendo, então eu prometi que viajaria pelo menos uma vez por ano para experimentar mais um pouco daquela sensação maravilhosa de entorpecimento que a viagem me trouxe, mas eu não contava com a surpresa que o destino havia me preparado.

Em Outubro de 2014, eu recebi outra notícia, mas que dessa vez não era de morte, mas sim de vida, eu soube no momento em que o médico me disse que eu gerava uma vida dentro de mim que nada mais seria como antes. Eu pensei nos sonhos que um dia eu ousei sonhar, pensei na promessa que me fiz de viajar mais, pensei em toda a tristeza que eu carregava comigo há tempos e foi difícil digerir todas essas informações. Eu surtei, pirei, quis gritar, respirei, mas voltei a mim e entendi que não era o fim, mas um recomeço.

Brumadinho Cachoeira dos Carrapatos

Rede Colaborativa Na Estrada Com As Minas

O Na Estrada com as Minas surgiu nessa época, a primeira rede colaborativa de mulheres viajantes nasceu como um perfil nas redes sociais para compartilhar as aventuras que eu tinha me proposto a viver. Eu tinha uma promessa e uma irresistível paixão por escrever e acreditava que daria muito certo. E quando a Clara nasceu em Junho de 2015 eu tive uma grande decepção, percebi que mesmo que eu quisesse muito me dedicar a esse projeto eu não conseguiria, estava envolvida demais com as fraldas e os lenços umedecidos para pensar em qualquer outra coisa. Foi frustrante, eu chorei e esperneei por não aceitar estar tão restrita, tão fechada, eu tinha o sonho de conquistar o mundo, mas eu sentia que o mundo não estava pronto para mim, tudo o que eu consegui pensar era de quantas em quantas horas eu precisaria me alimentar para alimentar a bebê. Às vezes eu chorava por me achar a pior mãe do mundo por pensar em qualquer outra coisa que não fosse relacionada a  maternidade e me sentia egoísta por achar que em algum momento eu seria capaz de me desafogar do “mundo maternidade”, mundo esse que em determinados momentos pode ser muito cruel para as mulheres que trilham essa estrada sozinha.

Quando a Clara completou 04 meses, em Novembro de 2015, eu pedi para ser desligada do emprego que estava para cuidar só dela, nessa época eu me sentia um pouco melhor com relação à maternidade por entender exatamente a dor de cada processo, nesse momento eu cheguei à conclusão de que era injusto demais eu estar tão triste, eu havia acabado de ganhar um grande  presente, uma dádiva do universo, eu ganhei a chance de ser mãe e fazer tudo diferente, mas eu também entendi que foi preciso “sentir essa dor”, o que muitas pessoas não entendem é que quando “nasce uma mãe, morre uma mulher”, não de forma literal, mas tudo o que você fora antes do nascimento daquele bebê é perdido no espaço e no tempo, a partir da chegada desse novo ser, nos transformamos em outras pessoas, seja para o bem ou para o mal e entender toda essa transformação não é fácil, e mais difícil ainda é entender que a vida não acaba na maternidade, ser mãe não significa que você não possa voltar a ser estudante, profissional, mulher! E quando me dei conta disso foi como se um mundo de novas possibilidades se abrisse para mim, eu poderia ser quem eu quisesse, ainda que eu fosse mãe da Clara, eu poderia ir além.

Anhembi Hostel Em São Paulo 

 

Decidida a mudar minha perspectiva, peguei todas as minhas economias e investi em uma boa mochila cargueira, na época eu participava de um grupo chamado Couchsurfing das Minas, onde as mulheres se conectavam para trocar experiências, oferecer e solicitar Couch – para quem não sabe, Couchsurfing é um serviço de hospitalidade, o domínio foi registrado por Casey Fenton em 1999 e até hoje o site é utilizado para busca e oferta de hospedagem de forma gratuita, proporcionando aos viajantes uma experiência como morador local  – nesse grupo eu li uma postagem de uma mina que vinha de Campo Grande/MS, passar seu aniversário no Rio e ela convidava outras mulheres a passarem um final de semana em Búzios, ela tinha uma amiga que trabalhava em hostel em Geribá. E lá fui eu, com uma bebê de quatro meses pendurada no canguru, uma mochila de 50L viajar, com uma mulher que eu tinha conhecido na internet. Minha mãe no inicio não acreditou que eu realmente fosse, para ela isso era um absurdo, e para mim, durante um tempo, também foi. Eu lembro que fiquei tão nervosa com essa viagem que entupi a mochila com as coisas da bebê, levei roupas e mantas extras e quando eu cheguei em Búzios lembrei de todas as minhas coisas que eu tinha esquecido. Fui viajar sem toalha, sem chinelo, sem pijamas e sem repelente para adultos. Ainda bem que eu tinha uma grana guardada e pude comprar alguns desses itens, mas fiquei pensando e “se eu  não tivesse?”. Além de tudo isso que é básico, em um primeiro momento eu fiquei aterrorizada com a chance de acontecer qualquer coisa com a minha bebê, mas com o passar do tempo esse medo foi se dissipando e se transformando em uma vitalidade que eu não sabia de onde vinha. E foi incrível, viver a experiência de pegar um ônibus com uma criança de colo e uma mochila, e me preocupar com certidão, fralda e lenço em vez de canga e biquíni foi uma experiência que sem dúvidas eu nunca vou me esquecer. Eu nunca tinha ficado em um hostel na vida e morri de medo de alguém roubar a Clara durante a viagem, no ônibus e no próprio hostel – até hoje eu tenho esse medo – mas eu fui com a cara e a coragem, contra tudo o que as pessoas acham que uma mãe deve fazer. Eu fui transgressora, fui ousada e dessa loucura toda a lição que tirei foi que eu queria mais, queria me sentir mais corajosa, queria ver o sorriso da minha filha mais vezes ao descobrir um lugar ou viver uma experiência nova, nós duas merecíamos construir uma história feliz e esquecer todas as lágrimas que foram derrubadas durante uma gravidez solitária.

Durante esse tempo eu percebi que o Na Estrada não estava maduro o suficiente para renascer, eu precisava me acertar primeiro com a maternidade e comigo mesmo, antes de dar qualquer passo rumo a um futuro incerto, eu lembro de me sentir muito perdida e me desesperar às vezes, então eu precisei desacelerar o ritmo, acalmar o coração e focar no que era importante. Eu vivi os primeiros meses da maternidade intensamente, e aproveitei para ler o máximo que podia sobre autoconhecimento, autoestima, movimentos sociais, foi uma imersão extremamente necessária e enriquecedora. Acredito que foi um divisor de águas para o renascimento da mulher que há tempos eu havia esquecido.

E a certeza de que o Na Estrada com as Minas estava pronto e maduro para “renascer” de uma forma muito bonita veio quando depois da nossa segunda viagem, em fevereiro de 2016 para Arraial do Cabo eu recebi várias mensagens de mulheres que falavam o quanto eu era corajosa e o quanto algumas delas gostariam de ter só um pouquinho dessa coragem, algumas delas tinham filhos e ficavam impressionadas com a forma tranquila e divertida que eu e Clarinha levávamos a viagem.  Outras não tinham filhos, mas se surpreendiam ainda assim com a capacidade da Clara de absorver o ambiente de forma positiva e aproveitar ao máximo, mesmo sendo tão nova. E cada palava que elas diziam a respeito do nosso incansável desejo de desbravar o mundo fez com que a chama reacendesse no peito e foi quando eu percebi que o Na Estrada com as Minas não era apenas sobre mim ou sobre as viagens que eu fazia e faria com a minha filha. O Na Estrada com as Minas tinha e ainda tem um pedacinho de todas as mulheres que cruzaram o nosso caminho e foram gentis, foram amáveis, sinceras, e simpáticas. Quebrando todo o estigma que existe a respeito da rivalidade feminina. Engravidar e criar um projeto focado nas mulheres me fez perceber que nós não somos inimigas, muito pelo contrário. Nós somos amigas, somos companheiras, somos fiéis, somos prestativas, nós, mulheres, somos tudo aquilo que a sociedade diz que não podemos ser, principalmente umas com as outras e acima de tudo, nós temos bravura! Empatia! E uma força que vem de cada ação transgressora que uma mulher “comete” e impulsiona todas as outras a saírem da sua zona de conforto.

Em Outubro de 2016, com a maior simplicidade do mundo, eu criei um post – que na época eu achava que “floparia” – falando a respeito da ideia de criar uma rede onde as mulheres pudessem trocar experiências, aquelas que já tinham ido longe demais poderiam  dar uma palavra de incentivo para quem ainda se sentia insegura de sair da sua própria casa. E nessa época eu já pensava em ser muito além do que só um site de viagens, muitas pessoas enviavam mensagens dizendo que tinham vontade de conhecer vários lugares na cidade, mas nunca tiverem oportunidade, ou que os passeios oferecidos eram caros demais ou em horários incompatíveis com a realidade do trabalhador carioca. E para minha surpresa, desse post, mais de 50 mulheres comentaram sobre o interesse de colaborar, inclusive uma Guia de Turismo credenciada pela Cadastur. Então o projeto além de iniciar os trabalhos com uma equipe de mulheres cariocas incríveis, começou com a proposta de debater o turismo no Rio de Janeiro de uma forma mais democrática, e como faríamos isso? Tornando-o mais acessível.

Hoje, o Na Estrada com as Minas conta com uma equipe incrível de seis mulheres cariocas, que superam todos os obstáculos – principalmente financeiro, pois não temos patrocinadores para promover esses eventos de forma gratuita, para manter o projeto – e se desdobram em mil para fazer dar certo. Hoje, nós contamos principalmente com uma fantástica rede de apoio e parceiros que estão sempre dispostos a nos ajudar na realização efetiva do projeto e que nos ajudam assim a alcançar cada vez mais mulheres.

Alguns anos depois de começar essa jornada, eu me vejo muito mais madura e confiante. Mais responsável e entendo cada vez mais a importância dessa rede de mulheres que cresce progressivamente. Perceber que as mulheres estão engajadas a dialogarem mais sobre suas demandas no Brasil e no mundo me deixa muito feliz, compreender que elas tinham uma carência nessa questão trouxe um novo prisma para o Projeto Na Estrada com as Minas. E acreditar na força e no poder do feminino e na capacidade que nós temos de nos reunir e nos ajudar é o que me dá mais ânimo para prosseguir.

E após realizar a minha 6° viagem com a Clarinha e ver a felicidade dela ao visitar pela primeira vez um Quilombo e uma cachoeira meu coração se encheu de satisfação – e sim, eu estou conseguindo cumprir a promessa de viajar uma vez por ano, em 2017 nós fizemos três viagens, uma em julho para Búzios, o lugar onde tudo começou, uma para Penedo, e uma viagem muito significativa para São Paulo, onde pude conhecer grandes amigos virtuais que a maternidade e a viagem me proporcionou. Agora em 2018 eu fiz a minha primeira viagem sem a Clara e nossa, que experiência! Foi um choque de realidade, nessa viagem eu percebi o quanto eu me negligencio quando viajo com a Clara, seja esquecendo a toalha ou não me importando com a minha segurança de tão louca que eu fico pensando na segurança dela. E pela primeira vez eu senti medo real de ser uma mulher viajando sozinha, com medo do meu sotaque me denunciar, medo de errar o caminho, foi surreal, mas, por outro lado, eu me senti muito orgulhosa de conseguir “desplugar” um pouquinho da minha bebezinha, me orgulhei por fazer amigos de forma aleatória, por dormir “tranquila”, me orgulhei por não me preocupar.

Agora quase quatro anos depois de onde toda essa loucura começou, Eu, Clara e toda Equipe do Na Estrada com as Minas seguimos muito mais fortalecidos e buscamos fortificar outras mulheres através de nossos relatos e eventos. Todas as mulheres são potência e a nossa proposta é fazê-las enxergar isso através de um diálogo entre amigas, sobre os desafios de ser uma mulher viajante, pois são elas que dão sustentação a essa rede colaborativa e que transformam essa história única, em uma história múltipla.

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Sobre o Autor

Laura Carniel

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